Construir um hotel em terra: porque a taipa estrutural muda tudo

A maioria dos hotéis começa por uma forma. Alguns começam por um conceito. Pouquíssimos começam pelo material.

O Gandum começou pela terra.

Não como escolha estética, não como nostalgia, e muito menos como decisão de branding — mas como decisão estrutural. Optar pela taipa estrutural definiu tudo o que veio depois: a arquitetura, o desempenho energético, o conforto, o ritmo da obra e, no fim, a forma como o hotel funciona todos os dias.

Hoje, o Gandum é um dos maiores edifícios contemporâneos em taipa estrutural do mundo aplicados à hotelaria. Não como experiência ou protótipo, mas como lugar real — habitado, usado, limpo, aquecido, arrefecido e vivido.

A terra não é acabamento.
É estrutura.

Na maioria da construção contemporânea, os materiais são camadas. Primeiro a estrutura, depois os acabamentos. O betão sustenta; os materiais vêm depois para dar aparência, textura ou conforto.

A taipa funciona de outra forma. Aqui, a parede é a estrutura. Isso muda tudo.

As paredes do Gandum não são revestimentos decorativos. São elementos portantes, maciços e contínuos que definem espaço, temperatura, acústica e atmosfera num único gesto. Não há separação entre o que se vê e o que trabalha.

Esta simplicidade é enganadora. Construir em taipa exige precisão, engenharia e profundo conhecimento do material. Não há pladur para esconder erros. Não há máquinas para corrigir depois o que ficou mal resolvido. O edifício tem de funcionar como foi construído.

Massa térmica
em vez de correção mecânica

Um dos maiores equívocos sobre edifícios sustentáveis é a ideia de que a sustentabilidade vem de adicionar tecnologia. Mais sistemas. Mais controlo. Mais equipamentos. A taipa faz o contrário.

A massa das paredes cria inércia térmica. O calor entra devagar. O frio sai devagar. As variações de temperatura são suavizadas antes mesmo de se fazerem sentir no interior.

No Gandum, isto traduz-se em:

  • interiores frescos no verão, sem arrefecimento agressivo

  • espaços que retêm calor no inverno

  • menor dependência de sistemas mecânicos constantes

A tecnologia existe — e é eficiente — mas já não serve para compensar erros de base. Serve para apoiar um edifício que já funciona por si. Aqui, a sustentabilidade está desenhada na parede, não acrescentada depois.

Um edifício que envelhece,
em vez de se desgastar

A maioria dos hotéis é construída para parecer bem no dia da abertura. Pouquíssimos são pensados para envelhecer bem. A terra envelhece de outra forma. Não descasca como a tinta nem se degrada como materiais compostos. Ganha pátina. Regista o tempo. Pequenas imperfeições não diminuem o edifício — tornam-no mais humano.

No Gandum, a durabilidade foi uma preocupação central. Este não é um edifício pensado para ser reinventado a cada década para seguir tendências. Foi pensado para continuar relevante sem mudar, precisamente porque é honesto quanto ao que é feito.

Pensar assim é, por si só, uma decisão radicalmente sustentável.

Construir mais devagar,
mas construir uma vez

Construir em taipa é lento. Exige mão de obra especializada, paciência e um ritmo que não se adapta bem a cronogramas acelerados. Escolhê-la significou aceitar: mais tempo de obra, maior complexidade inicial, menos atalhos. Mas também significou evitar: camadas sintéticas, acabamentos descartáveis. correções estruturais futuras.

Num setor habituado à velocidade e à repetição, construir devagar é uma posição clara — mas, acima de tudo, é uma estratégia de redução de risco a longo prazo.

Um conforto que se sente
antes de se perceber

A maioria dos hóspedes chega ao Gandum sem saber que está a dormir entre paredes de terra. Muitos nem se apercebem disso de imediato. O que sentem é outra coisa, mais difícil de nomear: silêncio, temperatura estável, calma, melhor descanso. Não são experiências programadas. São consequências arquitetónicas.

O corpo reage ao espaço antes da mente o interpretar. A taipa não se anuncia; regula, absorve, estabiliza. O conforto aparece de forma discreta, sem explicação.

Porque isto importa
para lá do Gandum

Grande parte do discurso sobre sustentabilidade na hotelaria foca-se na operação: energia, água, resíduos. Tudo isso é importante. Mas acontece depois de o edifício existir. As decisões estruturais acontecem antes de tudo.

Ao escolher a terra como estrutura, o Gandum reduziu a necessidade de correção, otimização e compensação futuras. Esta é sustentabilidade na origem, não à superfície. Num contexto em que a sustentabilidade é muitas vezes performativa, esta distinção é essencial.

A terra como material contemporâneo

A taipa é frequentemente vista como um regresso ao passado. Na realidade, no Gandum, é um sistema construtivo plenamente contemporâneo, engenheirado para cumprir exigências atuais de segurança, conforto e durabilidade.

Não há nada de rústico.

Nada de simbólico.

Nada de decorativo.

Apenas um material a cumprir várias funções ao mesmo tempo — estrutural, térmica, acústica e espacial.

Construir menos,
mas construir melhor

Chamar o Gandum de sustentável apenas porque é feito de terra seria simplista. O essencial não é o material isolado, mas a lógica que levou à sua escolha. Construir menos. Adicionar menos camadas. Confiar mais na física do que na correção posterior. Pensar em décadas, não em épocas. A taipa estrutural obriga a isso.

E quando essa decisão é tomada, tudo o resto — energia, comida, mobiliário, condições de trabalho — começa a alinhar-se naturalmente. Não porque a sustentabilidade seja um objetivo, mas porque a coerência deixa de ser opcional.

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