50.000 árvores depois: o que significa regenerar quando é a sério

Plantar árvores é fácil. Regenerar um território não é.

A diferença entre uma coisa e outra não está no número de árvores, nem na fotografia aérea, nem no comunicado de imprensa. Está no tempo, na intenção e na capacidade de aceitar que a regeneração real não é linear, nem rápida, nem controlável.

No Gandum, plantar mais de 50.000 árvores autóctones foi apenas o início. E talvez a parte mais simples de todo o processo.

Regenerar não é decorar a paisagem

Grande parte dos projetos que falam de regeneração começam pela paisagem visível. Árvores alinhadas, áreas verdes “recuperadas”, uma ideia de natureza organizada que funciona bem em imagem.

O problema é que a regeneração não acontece à superfície. Acontece no solo.

Antes de se falar em árvores, foi preciso falar de compactação, matéria orgânica, infiltração de água, biodiversidade invisível. O solo do Gandum, como grande parte dos solos agrícolas intensivos, precisava de tempo para voltar a funcionar como sistema vivo.

Plantar sem tratar o solo é plantar em esforço.

Agrofloresta não é um conceito. É um sistema exigente.

A agrofloresta no Gandum não foi pensada como cenário nem como narrativa. Foi pensada como sistema produtivo de longo prazo, com falhas incluídas.

Nem todas as árvores pegaram. Nem todas cresceram como previsto. Algumas espécies tiveram de ser substituídas. Outras revelaram-se mais resilientes do que o esperado.

Regenerar implica errar, observar, corrigir e aceitar que o controlo é sempre parcial. Quem procura resultados imediatos costuma desistir cedo — ou simplificar o discurso.

50.000 árvores não dizem muito sozinhas

O número impressiona, mas diz pouco por si só.

O que importa é como essas árvores foram plantadas e para quê.

No Gandum, a escolha recaiu sobre espécies autóctones, adaptadas ao clima, ao solo e à escassez de água. Árvores que não precisam de ser forçadas a crescer, mas que constroem resiliência ao longo do tempo.

Mais importante do que o número é o tecido que se cria: diferentes estratos, funções complementares, sombra, retenção de humidade, abrigo para insetos, aves e microrganismos.

Regenerar é criar relações, não coleções.

O tempo da terra não coincide com o tempo do turismo

Um dos maiores conflitos neste tipo de projeto é o desfasamento entre expectativas humanas e ritmos naturais. A terra trabalha em ciclos longos. O turismo trabalha em épocas curtas.

No Gandum, foi necessário aceitar que muitos dos resultados da agrofloresta não seriam visíveis nos primeiros anos. Que o impacto real se mediria em décadas, não em relatórios anuais. Essa decisão tem custos. Financeiros, operacionais e narrativos. Mas evita o erro mais comum: prometer regeneração antes de ela existir.

Regenerar enquanto se opera um hotel

Talvez a parte mais complexa de todo o processo seja esta: regenerar um território enquanto o lugar é usado todos os dias. O Gandum não é uma quinta experimental isolada. É um hotel em funcionamento, com hóspedes, equipas, refeições, piscinas e manutenção constante. Isso implica compromissos. Caminhos que têm de existir antes de estarem “prontos”. Áreas em transformação. Decisões que nem sempre são as mais bonitas no curto prazo. Regenerar, aqui, não é uma pausa. É uma camada adicional de complexidade operacional.

Agricultura, comida e coerência

A agrofloresta do Gandum não existe desligada do resto do projeto. Influencia a forma como se pensa a comida, o ritmo da cozinha e as expectativas à mesa. Nem tudo vem da terra. Nem tudo pode vir. E isso é assumido com clareza. Regenerar também é saber o que não produzir, o que não forçar e o que aceitar comprar fora, desde que com critério. A coerência está no sistema, não na pureza.

Regeneração não é neutralidade

Há uma ideia confortável de que regenerar é “compensar”. Fazer hoje algo que equilibra o impacto de ontem. Na prática, a regeneração não é neutra. É ativa. Exige presença constante, decisões continuadas e responsabilidade prolongada.

No Gandum, a agrofloresta não é um projeto fechado. É um processo em curso, sujeito a revisão permanente. Algumas decisões tomadas no início já foram revistas. Outras ainda o serão. Isso não é falha. É condição.

O que muda, então, 50.000 árvores depois?

Muda o microclima. Muda a forma como a água se infiltra e permanece. Muda a biodiversidade visível e invisível. Muda a relação do projeto com o tempo.

Mas, acima de tudo, muda a forma como se entende a palavra regeneração. Deixa de ser promessa e passa a ser responsabilidade continuada. Regenerar quando é a sério não é chegar a um ponto final. É comprometer-se a não sair do processo.

E isso, no Gandum, é talvez a decisão mais estrutural de todas.

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