Porque a sustentabilidade real não tem nada a ver com rótulos

Há hotéis com muitos selos. Há hotéis com poucos. E há hotéis que preferem explicar o que fazem antes de colar um rótulo à porta. O Gandum pertence a este último grupo.

Não por desconfiança dos selos em si, mas porque a sustentabilidade real raramente cabe bem num autocolante. É feita de decisões contínuas, muitas delas invisíveis, quase todas difíceis de comunicar de forma simples.

Os rótulos tranquilizam. As decisões complicam.

Os rótulos existem para simplificar. Dão segurança a quem escolhe e ajudam a comparar projetos muito diferentes entre si.

O problema começa quando a sustentabilidade se transforma numa lista de critérios a cumprir, em vez de um sistema coerente de decisões. Quando o objetivo passa a ser obter o selo, e não perceber se as escolhas fazem sentido naquele lugar, naquele clima, naquela escala.

No Gandum, nunca houve uma checklist inicial a cumprir. Houve perguntas sucessivas: Isto faz sentido aqui? Isto aguenta o tempo? Isto melhora realmente a forma como o lugar funciona?

Nem sempre as respostas foram óbvias. Muitas vezes implicaram abdicar de soluções fáceis.

Sustentabilidade não é uma camada final

Grande parte do discurso sustentável aparece no fim do processo: depois da obra, depois do conceito, depois do modelo de negócio. Aplica-se uma camada “verde” sobre algo que já está decidido. No Gandum, aconteceu o contrário.

A sustentabilidade entrou antes da arquitetura, antes da cozinha, antes da operação. Entrou quando se decidiu construir em taipa estrutural, aceitar tempos longos, trabalhar com limites reais do território e pensar em durabilidade em vez de impacto imediato. Quando as decisões são estruturais, os rótulos tornam-se secundários.

O que não cabe num selo

Há muita coisa que dificilmente cabe num sistema de certificação:

  • construir um dos maiores edifícios contemporâneos em taipa estrutural do mundo

  • plantar 50.000 árvores sabendo que o impacto real só se mede em décadas

  • aceitar menus que mudam porque os fornecedores não são industriais

  • escolher materiais que dão mais trabalho a limpar e manter

  • investir em condições de trabalho acima da média num setor historicamente precário

Nada disto é facilmente quantificável num formulário. Mas tudo isto define o projeto.

Transparência em vez de perfeição

Uma das armadilhas dos rótulos é a ilusão de perfeição. A ideia de que um projeto certificado “resolveu” a sustentabilidade. No Gandum, a abordagem foi outra: assumir imperfeições, limites e contradições. Nem tudo é local. Nem tudo é regenerativo. Nem tudo é o melhor cenário possível.

Mas tudo é pensado, discutido e revisto. A sustentabilidade real não vive de promessas absolutas. Vive de melhoria contínua e de responsabilidade assumida ao longo do tempo.

Sustentabilidade como cultura, não como marketing

Quando a sustentabilidade é tratada como marketing, precisa de ser visível, repetível e facilmente explicável. Quando é tratada como cultura, infiltra-se em tudo — mesmo quando ninguém está a olhar.

No Gandum, ela aparece:

  • na forma como se constrói

  • na forma como se cozinha

  • na forma como se trabalha

  • na forma como se recebe

Não como argumento de venda principal, mas como consequência natural de um projeto pensado para durar.

Escolher não rotular também é uma escolha

Não rejeitar rótulos não significa rejeitar responsabilidade. Significa aceitar que o trabalho é mais complexo do que um selo consegue representar. O Gandum continuará a evoluir, a medir melhor, a ajustar decisões e, eventualmente, a dialogar com sistemas de certificação — mas nunca à custa da coerência interna do projeto.

Porque, no fim, a pergunta não é: “somos sustentáveis?”

É outra, bem mais exigente: “isto continua a fazer sentido daqui a 10, 20 ou 30 anos?”

Sustentabilidade sem palco

Talvez a sustentabilidade real seja isso: fazer o trabalho mesmo quando não há palco, prémio ou rótulo. Construir devagar. Decidir com cuidado. Assumir consequências.

No Gandum, essa escolha foi feita desde o início. E continua a ser feita todos os dias.

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