O lado invisível dos hotéis sustentáveis: trabalho, tempo e cuidado

Quando se fala de sustentabilidade na hotelaria, fala-se quase sempre de edifícios, energia, água ou comida. Raramente se fala de trabalho.

Talvez porque trabalho não apareça bem nas fotografias. Talvez porque é mais fácil medir kilowatts do que ritmos humanos. Ou talvez porque cuidar de pessoas é a parte mais difícil de tornar escalável.

No Gandum, a sustentabilidade nunca fez sentido se ficasse pela matéria. Sempre foi também — e sobretudo — uma questão de como se trabalha.

Sustentabilidade começa no horário

A hotelaria vive de horários longos, turnos partidos e disponibilidade permanente. É assim em quase todo o lado. Durante muito tempo, foi assim também aqui. Mas rapidamente se tornou claro que não fazia sentido falar de cuidado do território, da comida ou dos materiais sem olhar para o tempo das pessoas.

No Gandum, o trabalho começou a ser pensado de outra forma:

  • turnos mais previsíveis

  • menos improviso permanente

  • mais respeito pelo descanso

Nada disto é perfeito. Nada disto é simples. Mas cada ajuste teve um impacto direto na qualidade do espaço e na forma como ele é vivido.

Cuidar do lugar exige continuidade

Um hotel não é um objeto estático. É um organismo em uso constante. Quartos precisam de atenção diária. Espaços comuns precisam de manutenção contínua. A limpeza não é um gesto mecânico, é um conhecimento acumulado. Quando as equipas rodam demasiado depressa, esse conhecimento perde-se. O cuidado transforma-se em execução mínima. O detalhe desaparece. No Gandum, a aposta foi clara: menos rotatividade, mais continuidade. Isso significa investir em condições que façam as pessoas querer ficar — e poder ficar.

O conforto do hóspede começa antes da chegada

Muitos hóspedes referem nas avaliações algo difícil de quantificar: a sensação de serem bem recebidos, acompanhados e respeitados. Isso não acontece por acaso. A forma como alguém limpa um quarto, prepara uma mesa ou responde a um pedido depende diretamente de como essa pessoa se sente no seu trabalho. Sustentabilidade operacional é isto: perceber que o cuidado não se exige, cria-se. Não há atalhos aqui. Só tempo, formação e confiança.

Trabalhar melhor para trabalhar menos no futuro

Há uma ideia persistente de que melhores condições de trabalho custam sempre mais. A experiência mostra algo diferente: custam de outra forma. Investir em equipas estáveis reduz erros. Reduz desgaste. Reduz substituições constantes.

No médio prazo, reduz também custos invisíveis: refazer, corrigir, explicar de novo, recomeçar. Sustentabilidade, neste plano, é pensar para lá da folha mensal.

Cuidado não é um departamento

No Gandum, não existe um “departamento de sustentabilidade” separado do resto. O cuidado atravessa tudo: arquitetura, cozinha, limpeza, receção, manutenção. Isso exige decisões menos eficientes no curto prazo. Exige dizer não a certas acelerações. Exige aceitar que nem tudo cresce ao mesmo ritmo. Mas cria algo mais raro: coerência entre discurso e prática.

Um hotel feito por pessoas, não apesar delas

Talvez o lado mais invisível da sustentabilidade seja este: reconhecer que um hotel não funciona apesar das pessoas, mas por causa delas. As paredes podem ser de terra. A comida pode ser local. Os materiais podem ser naturais.

Sem equipas cuidadas, tudo isso perde sentido rapidamente. No Gandum, a sustentabilidade não termina quando se fecha a porta do quarto. Continua todos os dias, nas rotinas, nos horários, nas conversas e nas decisões que raramente aparecem em lado nenhum.

E talvez seja aí que ela mais conta.

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