Um hotel quase autónomo: água, energia e limites assumidos

A autonomia total é uma ideia sedutora. Também é, na maioria dos casos, uma simplificação.

No Gandum, nunca se falou de autossuficiência como objetivo absoluto. Falou-se antes de reduzir dependências, assumir limites e construir um sistema que continue a funcionar quando as condições não são ideais. Quase autónomo não é um slogan. É uma posição consciente.

Autonomia começa por saber do que se depende

Antes de produzir energia ou tratar água, foi preciso responder a uma pergunta básica: do que é que este lugar realmente precisa para funcionar bem?

Não do máximo possível. Não do cenário ideal. Mas do necessário — no dia a dia, ao longo do ano, com ocupações diferentes. Esse exercício reduziu expectativas e excessos logo à partida. A autonomia não nasce da abundância, nasce da clareza.

Energia: produzir muito não chega

O Gandum produz uma parte significativa da energia que consome, mas isso nunca foi tratado como um troféu. Produzir energia não é sinónimo de usá-la bem.

A produção só faz sentido quando vem acompanhada de: edifícios que precisam de menos, sistemas que não trabalham em permanente correção, escolhas operacionais que evitam picos desnecessários.

Sem isso, a autonomia energética transforma-se apenas numa deslocação do problema.

Água: gerir é mais importante do que captar

Num território como o Alentejo, falar de água exige prudência. Mais captação não é solução. Mais eficiência no uso, sim.

No Gandum, a água é pensada como um ciclo: uso, tratamento, reutilização. As águas residuais são tratadas localmente e voltam ao território sob a forma de rega, fechando um circuito que reduz desperdício e pressão sobre o sistema.

A autonomia aqui não é independência total. É responsabilidade local.

Sistemas que aceitam falhar

Uma das ideias menos faladas quando se fala de autonomia é esta: sistemas autónomos também falham. E quando falham, falham sozinhos.

Por isso, no Gandum, a autonomia nunca foi desenhada como isolamento. Foi desenhada como resiliência. Sistemas capazes de funcionar bem na maioria do tempo, mas também capazes de se apoiar em redes externas quando necessário.

Aceitar isso não diminui o projeto. Torna-o mais honesto.

Autonomia sem dogma

Há decisões que poderiam tornar o Gandum “mais autónomo” no papel. Algumas foram conscientemente rejeitadas.

Não por falta de ambição, mas porque: aumentariam complexidade desnecessária, exigiriam manutenção constante, deslocariam problemas em vez de os resolver.

A autonomia que interessa é a que se sustenta no tempo, não a que impressiona numa visita técnica.

O papel dos limites

Talvez o aspeto mais importante da quase autonomia do Gandum seja este: os limites são assumidos, não escondidos. Nem toda a energia pode ser produzida localmente. Nem toda a água pode ser reutilizada indefinidamente. Nem toda a dependência pode ser eliminada. E isso é aceitável. A sustentabilidade real não vive da negação dos limites, mas da capacidade de trabalhar bem dentro deles.

Autonomia como ferramenta, não como identidade

No Gandum, a quase autonomia não define a identidade do lugar. Apoia-a. Permite maior controlo. Reduz vulnerabilidades. Cria margem de decisão. Mas nunca se tornou um fim em si mesma. Porque, no fim, um hotel não existe para ser autónomo. Existe para funcionar bem, cuidar do lugar onde está e continuar relevante daqui a muitos anos.

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