Agroflorestas no Gandum: plantar árvores é fácil, criar sistemas vivos não

Mais de 50 mil árvores plantadas no Gandum — e sempre a crescer. Mas mais importante do que o número é o sistema que está por trás dele.

Uma das formas mais eficazes de pôr em prática a agricultura regenerativa é através da criação — e manutenção — de agroflorestas. Foi por aí que começámos. No Gandum existem hoje três agroflorestas, todas semeadas e plantadas desde o início do projeto. Não como um gesto simbólico, mas como uma decisão estrutural sobre a forma como queremos produzir alimentos, cuidar do solo e regenerar o território.

Trabalhando com a natureza, aplicando princípios da agricultura sintrópica combinados com práticas agrícolas tradicionais e com o saber-fazer local, cuidamos destas agroflorestas que, em troca, nos nutrem. É uma relação de reciprocidade, não de extração.

Desde 2019, já plantámos mais de 25 mil árvores na quinta — um número que continua a crescer, graças ao envolvimento de muitas pessoas que contribuíram com tempo, energia, conhecimento e dedicação para a regeneração deste lugar.

Agroflorestas jovens, impacto real

Apesar de ainda jovens, as agroflorestas do Gandum já permitem produzir alimentos de forma sustentável, recorrendo a práticas que preservam a biodiversidade e promovem a regeneração do solo. Mas o impacto vai muito além da produção alimentar.

Estes sistemas ajudam a mitigar as alterações climáticas, regulam o ciclo da água, capturam carbono da atmosfera e criam habitats para uma enorme diversidade de fauna e flora locais. Fazem, literalmente, o mundo respirar melhor.

Trabalhar com a natureza, não contra ela

Inspirados pela agricultura sintrópica desenvolvida por Ernst Götsch, no Gandum adotámos uma abordagem simples na sua essência e exigente na prática: trabalhar com a natureza, não contra ela.

Aqui, o ser humano deixa de ser um explorador de recursos para assumir o papel de cocriador de sistemas vivos. Não cultivamos apenas alimentos — cultivamos biodiversidade. E não plantamos apenas árvores: plantamos água.

Nos sistemas agroflorestais, árvores de fruto, árvores florestais, arbustos, hortícolas e plantas espontâneas coexistem, criando um ecossistema em que cada elemento colabora para o equilíbrio do todo. Esta diversidade reforça a resiliência do sistema, aumenta a fertilidade do solo e cria abundância a médio e longo prazo.

Ao abdicar do uso de pesticidas e fertilizantes químicos, produzimos alimentos que não são apenas saborosos, mas profundamente nutritivos. Esta escolha é simultaneamente um gesto de respeito pela terra e uma resposta concreta aos desafios das alterações climáticas e da escassez de água — especialmente relevantes em regiões quentes e secas como o Alentejo.

Sintropia: acumular energia em vez de a dissipar

As agroflorestas baseiam-se no conceito de sintropia, um processo em que os sistemas agrícolas se tornam progressivamente mais complexos e capazes de acumular energia, ao contrário da entropia típica das monoculturas, que esgotam recursos.

Ao replicar a lógica da natureza, estes sistemas substituem a ideia de extração por uma lógica de balanço energético positivo. Todos os elementos — humanos, animais, plantas, fungos e microrganismos — desempenham papéis igualmente importantes e interdependentes.

A diversidade é a base de tudo. Em vez de ocupar um terreno com uma única espécie, como acontece na agricultura intensiva, produzimos alimentos em vários estratos, aproveitando o espaço vertical e horizontal de forma inteligente.

Estratificação: produzir como uma floresta

Nas agroflorestas do Gandum, árvores, arbustos e culturas hortícolas crescem segundo o modelo natural da floresta. Existem plantas que quase tocam o céu e outras que vivem rente ao solo. Cada espécie cresce à sombra — ou à luz — de outras, de acordo com as suas necessidades específicas.

Esta estratificação permite que as plantas se desenvolvam de forma mais equilibrada, atinjam o seu potencial máximo e produzam mais e melhor, com menos stress hídrico e menor vulnerabilidade a extremos climáticos.

É agricultura pensada para o futuro, mas profundamente enraizada na forma como a natureza sempre funcionou.

Um sistema vivo, em constante evolução

As agroflorestas do Gandum não são um projeto fechado nem um resultado final. São sistemas vivos, em permanente adaptação, aprendizagem e crescimento.

Cada árvore plantada é uma decisão a longo prazo. Cada erro é uma aprendizagem. Cada estação traz novas respostas. E é precisamente essa complexidade que faz das agroflorestas uma das ferramentas mais promissoras para regenerar solos, produzir alimentos e construir paisagens com futuro.

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